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sábado, 15 de junho de 2013

Geraldão. "Ai que saudades dos clássicos com os alfacinhas"

Autor de 23 golos em quatro épocas pelo FC Porto, o central brasileiro recorda Ivkovic, mete-se com André e vibra com Kelvin mais Ivanovic
Geraldão, um fenómeno. Quem viveu, sabe. Quem viu, também. O central brasileiro passa quatro anos pelo FC Porto (1987-1991) e ganha sete títulos, dois deles internacionais (Supertaça europeia e Taça Intercontinental). Pelo meio, 128 jogos e agora imagina o número de golos? Quantos? Ahahahah, só? Não, muito mais: vinte e três. Isso, 23. E só dois de penálti. É obra.

Boa tarde, é o Geraldão?
Isso mesmo.

Sou jornalista português, Rui Miguel Tovar.
Oi Rui, tudo bom?

Tudo.
Estás [enrola a língua para falar português de Portugal] onde?

Aqui, no Brasil.
Sério?

Isso, em São Paulo.
E vens aqui a BH [Belo Horizonte]?

Sim, só para a semana, ver o Taiti-Nigéria.
Jogaço, hein! Estás bem servido, ò Rui.

Vai ser o jogo da Copa, acredita.
Eheheh, acredito.

Como é que um defesa marca tantos golos em tão pouco tempo no FC Porto?
O FC Porto é um pouco como o Barcelona em termos de organização: o presidente é aquele, o director para o futebol é o outro, o treinador é um cara sério e competente e o adjunto também. Só assim é que as coisas funcionavam direito, só assim é que um defesa como eu podia ter marcado tanto. Quando toda a estrutura funciona, é fácil demais.

Mas 23 golos continuam a ser demais.
Não é bem assim, nós jogávamos sempre para a frente, todos arriscávamos o remate. Se fores ver às estatísticas, todos nós, do meio-campo para trás, temos 3/4 golos por época. Quer dizer, todos menos o André. Ele só marcava um por época e olhe lá [desata a rir]. Mas era bom demais, organizava os nossos almoços de terça e sexta-feira lá em Penafiel.

Na sexta-feira?
O treino era matinal, íamos almoçar um belo de um galo com um verde ou um tinto maduro e depois voltávamos para as massagens. Muito bom. Claro que avisávamos sempre o Octávio Machado.

Ui, e ele?
Sabia das nossas almoçaradas, mas não foi a nenhuma. Era reservado e observador.

Como é que o Geraldão foi parar ao FC Porto?
Estava com a selecção brasileira, era o capitão aliás, em Londres a jogar a Taça Stanley Rous. O FC Porto mandou lá alguém ver-me e quando dei por mim já estava a assinar. No FC Porto, era costume ser assim, rápido e eficaz, sem demoras. Fosse com jogadores ou treinadores, de um momento para o outro, estava contratado. Comigo foi assim. Estava a terminar o contrato com o Cruzeiro e atravessei o Atlântico.

Lembra-se da estreia?
Claro, Rui. Tenho até aqui uma fotografia da equipa desse dia, em Guimarães. Empatámos 0-0. Mlynarczyk na baliza. João Pinto, eu, Celso e Inácio. No meio, André. Depois, Jaime Magalhães, Semedo e Sousa. No ataque, Madjer e Gomes.

E o treinador?
Tomislav Ivic, um homem com um coração enorme que adorava treinar.

Mas também era duro, não?
Tem de ser. No Porto, tem de ser assim. Se entra lá para ser amigo de todo o mundo, não vai dar. Faz parte da cultura: se quer ganhar, nunca dá mole nem sai da linha.

O Geraldão alguma vez deu mole?
Não, nem uma vez. Mas houve um episódio curioso: um jogador disse que ia pedir ao treinador para mudar o horário dos treinos porque era muito cedo e fazia frio. Na hora, o capitão, acho que o Lima Pereira, disse 'eu sou pago para treinar e jogar, treino e jogo à hora que eles entenderem.' O assunto acabou ali.

E os jogos com o Benfica e o Sporting?
Ai, que saudades dos clássicos com os alfacinhas. Na verdade, os clássicos com o Benfica eram mais duros fora do relvado. A uma semana do jogo, o Gaspar Ramos dizia uma coisa, o Pinto da Costa outra e assim sucessivamente. Quando chegávamos à Luz, o presidente era sempre o primeiro a sair do autocarro e dizia-nos 'vou sair para ouvir tudo o que eles têm para vos dizer'. Nos clássicos com o Sporting, há um muito curioso, nas Antas. Na véspera, o Ivkovic disse que sabia muito bem como eu batia os livres.

Ahhh, sim, lembro-me.
Lembra? Aos cinco minutos, falta contra o Sporting. Na altura, já não havia Branco, por isso eu marcava os livres na direita e na esquerda. É livre e eu avanço para a bola. O Marinho Peres levanta-se do banco e diz-me 'pôxa, não vai atirar para golo, pois não? está longe ainda'. No outro lado, o Artur Jorge picou-me 'Geraldo, atira à baliza'. Eu viro-me para o Marinho Peres e digo-lhe 'fazer o quê? Ordens são ordens.' Bem, atiro forte e a bola só acaba na baliza, um-zero e o Marinho Peres a olhar para mim a abanar a cabeça. Nunca revi esse golo, a não ser no Domingo Desportivo. De resto, não tenho esse golo comigo.

Se o Geraldão saiu do FC Porto em 1991, ainda participou naquele famoso clássico do César Brito.
Aí estava suspenso.

Então?
Em 90/91 foi a época em que inventaram que eu ia assinar pelo Benfica e então houve um problema
.
De que tipo?
Coisas internas. Joguei quatro anos no FC Porto e estava na hora de renovar o contrato mas nunca mais falavam comigo. Eu tudo bem, na minha, aliás já tinha uma série de golos no campeonato dessa época [12, com dois bis vs. Boavista e Gil Vicente] quando falhei um penálti com o Salgueiros, num jogo em que ganhámos 3-0. Houve logo quem se aproveitasse para dizer que eu ia assinar contrato com o Benfica no final da época.

Ia?
Que nada, Rui. Nunca jogaria no Benfica. Como foi engraçado ver aquele golo nos descontos.

Do Kelvin?
Do Kelvin, e do Chelsea. E também do Vitória no Jamor. Eu sigo tudo aqui, sei tudo pela RTP Internacional, vi a dança do presidente no final do 2-1 ao Benfica. Sou Porto, nunca Benfica. Da mesma forma que nunca jogaria no Atlético Mineiro, como profissional incondicional do Cruzeiro.

Mas e essa confusão?
Depois do penálti falhado, o presidente disse-me que estava desconcentrado e afastou-me da equipa. Eu só lhe disse que os rumores sobre assinar pelo Benfica eram mentira.

E renovou pelo FC Porto?
Não, fui para o PSG com o Artur Jorge que também levou Ricardo Gomes e Valdo.

E?
Dei-me mal por lá e saí um ano depois. Não deu certo para mim, mas foi um projecto engraçado porque aquela turma [Artur Jorge, Ricardo e Valdo] ganharam Taça de França no ano seguinte e depois o campeonato francês. Muito bom para eles.

Na selecção brasileira, você joga pouco. Porquê?
A maior das confusões. Na Copa América-87, por exemplo, um dirigente da federação brasileira não queria que a dupla de centrais fosse eu e o Ricardo Rocha e como que obrigou o seleccionador a meter o Júlio César.

Aquele do Borussia Dortmund?
Esse aí. Perdemos 4-0 com o Chile e fomos eliminados. Foi assim.

Bom, é tudo, obrigado.
De nada, Rui, obrigadio eu. Capricha aí e depois envia-me a matéria por e-mail, pode ser?


Pode, claro.

in "ionline.pt"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Tóquio, 25 anos: as memórias de Madjer e Gomes


Taça Intercontinental de 1987A primeira vitória do FC Porto na Taça Intercontinental foi há 25 anos. Na neve de Tóquio, frente ao Peñarol. A recordação desse momento pela voz dos protagonistas, num artigo originalmente publicado em dezembro de 2004, quando o FC Porto jogou a sua segunda Intercontinental, a última edição naquele formato. 

42 minutos. Jaime Magalhães recupera a bola a meio-campo e solicita Madjer de imediato na direita, que finta Dominguez. Sem perder tempo, remata cruzado, a bola fica parada quase em cima da linha de baliza e surge Fernando Gomes, que se antecipa a Herrera e faz o 1-0.

Foi este o primeiro momento de triunfo registado a 13 de Dezembro de 1987, no Estádio Olímpico de Tóquio, sob um incessante nevão. O F.C. Porto ainda não era «campeão do mundo», como lhe chamariam na altura, porque os uruguaios do Peñarol viriam a empatar aos 80 minutos, por Viera, mas o tal golo de Gomes serviu para provar que era possível jogar naquele terreno impraticável, um lamaçal gelado, e vencer. Comprovando esse facto, já durante a segunda parte do prolongamento, Madjer pegou na bola amarela e despachou-a para o fundo da baliza de Pereira, fazendo-lhe um chapéu a mais de trinta metros da baliza.

Os heróis da altura mantêm as memórias frescas. «Lembro-me muito bem do jogo. O clima era péssimo, o campo impraticável, por isso as condições eram terríveis e ainda havia o Peñarol, que era uma belíssima equipa. A nossa única vontade era vencer e felizmente conseguimos. O Gomes marcou o primeiro golo, após uma jogada minha na direita; os uruguaios empataram e, finalmente, no prolongamento o Sousa recuperou a bola, chutou-a para a frente, o defesa não consegue controlar e eu venho de trás. Percebendo que o guarda-redes estava fora da baliza, chutei a bola mais ou menos do meio-campo, e esta, quando bateu no relvado, rolou muito levemente e houve algum suspense, mas acabaria por entrar», recorda Madjer ao Maisfutebol.

Para o argelino maravilhoso, este foi um dos melhores momentos da sua carreira. Não houve neve suficiente que o travasse: «Na altura até acho que não tivemos muitos problemas, porque enquanto estávamos a correr ficávamos quentinhos. O pior foi quando o jogo acabou, porque realmente estava muito frio, o que já nem interessava, porque éramos campeões».

Orgulho de «capitão»

Fernando Gomes, o bi-bota de ouro, esteve igualmente em destaque naquela madrugada louca de Tóquio. «Sabe, nunca cheguei a ver o jogo pela televisão. Até hoje apenas guardo as memórias daquilo que senti dentro de campo», confessa, conseguindo provar com toda a certeza o que tinha dito ao explicar minuciosamente o golo que marcou.

O ex-avançado resume os sentimentos em algumas palavras elogiosas para com todos os seus colegas da altura. «Tenho de realçar o comportamento dos jogadores sob aquelas condições. Foi o jogo mais difícil que tive na minha carreira, como com certeza o foi para todos os meus colegas. Mas valeu a pena, porque continuamos a ser a única equipa portuguesa com esse título. Fiquei muito feliz, porque para além de ter marcado o golo, fui o capitão e levantei a taça», abordou. De facto, Gomes levantou a Intercontinental, enquanto Lima Pereira se encarregou da Toyota Cup e Madjer da chave dourada do automóvel, prémio por ter sido o melhor jogador em campo.

FICHA DO JOGO

F.C. PORTO: Mlynarczyk; João Pinto, Geraldão, Lima Pereira e Inácio; Jaime Magalhães, André, Rui Barros (Quim, 61m) e Sousa; Madjer e Gomes.
Treinador: Tomislav Ivic

PEÑAROL: Pereira; Herrera (Gonçalves, 95m), Rotti, Trasante e Dominguez; Perdomo, Vidal, Da Silva e Cabrera (Matosos, 46m); Viera e Aguirre.
Treinador: Óscar Tabarez
Marcadores: 1-0, Gomes, aos 42m; 1-1, Viera, aos 80m; 2-1, Madjer, aos 109m.

Tóquio, 25 anos: na neve de manga curta para mostrar força

As memórias de Geraldão, dos treinos secretos nas Antas às queimaduras debaixo do chuveiro.


São 25 anos desde aquela final gelada de Tóquio mas ficaram várias histórias por contar. O   Porto venceu o Peñarol por 2-1 conquistou a primeira Taça Intercontinental. Gomes e Madjer, autores dos golos portistas, já recordaram esses momentos. Sobram episódios que Geraldão desvenda através do Maisfutebol.

Geraldo Dutra Pereira, brasileiro de Minas Gerais, aterrou em Portugal no verão de 1987. Venceu a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental, mais campeonato e taça. Uma época inesquecível.

A preparação para a viagem intercontinental teve capítulos deliciosos. Desde logo, pelos treinos de madrugada no Estádio das Antas. Uma forma de adaptar o plantel ao fuso horário do Japão.

«Lembro-me que um mês antes da viagem, já estávamos a fazer treinos secretos no Estádio das Antas. Começavam à meia-noite, uma, duas da manhã, e acabavam quanto fosse preciso. Estava há alguns meses em Portugal e percebia logo ali a organização do F.C. Porto, fantástica», recorda Geraldão.

Seguiu-se uma viagem «ao contrário». «Fomos ao contrário para o Japão. Tivemos de fazer uma escala no Alasca e lá chegámos. É verdade que havia alguma tensão, brigas internas, mas isso sempre ficou no balneário. Não vou ser eu a revelar. Só posso dizer que, para sermos campeões, sofremos muito (risos).»

Geraldão enaltece o valor do adversário, que chegara ao destino dias antes. A preparação seria essencial e o F.C. Porto parecia estar em desvantagem, nesse aspecto. «O Peñarol era melhor que algumas equipas argentinas da época. É normal desvalorizar as equipas sul-americanas, mas esquecem-se que elas chegam a essse jogos no final da sua temporada, portanto preparam-se de forma muito intensa e exclusiva.»

Porto decide jogar de manga curta!

O Peñarol não foi, contudo, o maior obstáculo. Para um brasileiro, então, o frio e a neve inquietavam. Sobretudo, após uma decisão de Pinto da Costa e João Pinto.

«O presidente e o capitão decidiram que íamos jogar de manga curta, para não demonstrar fraqueza. Foi uma decisão que o grupo aceitou e lá fomos nós!»

O antigo central não esquece. Diz, por iniciativa própria, todo o onze do F.C. Porto desse encontro. Resume com entusiasmo: «Era uma equipa de sonho, fantástica. Para além disso, tinha uma retaguarda tremenda. Foi aí que aprendi muito sobre estruturas profissionais de futebol.»

«Durante o jogo, claro que sentimos dificuldades. Jogámos de manga curta mas tínhamos plásticos por baixo, tudo para tentar combater o frio. Foi uma batalha muito dura. E sentimos isso na pele no final», revela.

Queimaduras debaixo do chuveiro

Na pele? Literalmente. «Após o jogo, já nos balneários, fomos logo tomar banho. Mas rodámos as torneiras de água quente e entrámos logo. Ainda me lembro do Rodolfo Moura a aperceber-se disso e a mandar toda a gente sair, mas para alguns já era tarde. Eu e outros ficámos com queimaduras no corpo.»

«Enfim, tudo valeu a pena. Todos os anos, por esta altura, lembro-me dessa conquista na Intercontinental. Tenho uma bandeira do F.C. Porto na minha fazenda e o clube deixou muitas saudades», acrescenta o brasileiro.

Geraldão, aos 49 anos, divide o tempo entre a sua fazenda em Governador Valadares e o cargo de gerente de futebol do Democrata de Valadares, clube local. Mas a ligação a Portugal perdura até aos dias de hoje.

«Tenho um andar no Porto e costumo ir aí. Não vou há dois anos, mas já fui uma vez com o meu filho ao Estádio do Dragão. Fui muito bem recebido, como sempre. Levo o F.C. Porto no coração», remata, em entrevista ao Maisfutebol.


in "maisfutebol.iol.pt"