A capacidade de ser adulto e saborear o que é bom
O sossego de quem não erra é inestimável. Já o equívoco grave do pecador normalmente não traz nada de bom. É assim no futebol como na vida. Tantas vezes nos vemos sem espaço para o perdão, sem lugar para a redenção, longe do indulto. No Clássico, o F.C. Porto abusou do erro. Sofreu dois golos inadmissíveis, sentiu a culpa a esburacar-lhe o âmago e jamais foi capaz de reagir convenientemente.
Perdeu. Perdeu bem e sem direito a apelo.
Mais perto do Jamor está o Benfica. Um déspota esclarecido no regresso ao Dragão de tão pestilentas memórias. Foi rigoroso, inclemente, abusou dos lapsos contrários e matou o jogo em 26 minutos.
Maicon estendeu-se ao comprido no colchão velho da humilhação e Fábio Coentrão encostou a biqueira à bola para o 0-1; num assomo de adrenalina e pundonor, os dragões tiveram o imberbe James falhar de baliza aberta e entregaram-se à penitência, à auto-flagelação; logo depois, o 0-2 de Javi García, num cocktail de desconcentração a dividir por Fernando e Helton.
David Luiz? Dele ninguém se lembrou.
A defesa ruiu e levou todo o Porto atrás
Jesus deu à equipa uma roupagem de Bogart. Sisuda, aparentemente desinteressada, mergulhada no vácuo de um olhar perdido num copo de gin. Por entre o fumo esvoaçante de um cigarro preguiçoso, a cabeça erguia-se num alerta surpreendente e pedia mais: Play it again, Sam, em instantes de Casablanca retratados no Dragão.
E assim foi. Num jogo de aparências, o Benfica mascarou-se de vítima frágil, recuou no terreno e geriu as evidências a seu bel-prazer. Play it again, Sam e os dois golos surgiram, agrilhoados à incompetência de uma defesa do Porto trémula e de tiques ridículos.
Sereno foi defesa esquerdo improvisado, consciente a defender e vazio a atacar; Maicon comprometeu como já fez outras vezes este ano e pincelou uma tela de vulgaridade assustadora; Helton não foi o guarda-redes do costume, demasiado confiante e, por paradoxal que seja, extremamente falível.
As fundações do F.C. Porto ruíram bem cedo e levaram toda a equipa atrás.
Não houve Falcao, muito menos Walter
Em defesa do líder da Liga, é de bom tom sublinhar mais uma ausência de Falcao. A somar às de Alvaro Pereira e Emídio Rafael. Menos compreensível é a exclusão de Walter.
A perder, André Villas-Boas só pôde retirar de campo James Rodríguez (sem maturidade para uma trama desta densidade) e colocar o homónimo Cristian. Mais tarde, já em superioridade numérica (pela expulsão de Coentrão), apostou as fichas todas com Guarín e Rúben Micael. Isso, dois médios. Estranho, muito estranho por sinal.
Desequilibrado atrás e depauperado à frente, o Porto foi um espectro sem alma, nem ordem. Teve vontade (muita), honestidade (ainda mais), mas muitas e muitas limitações. Além do desperdício inacreditável de James, houve um remate extraordinário de Hulk (de regresso às noites de egoísmo) e nada mais.
A melodia (ou evolução) tem um responsável: Jesus
Consequências desta peleja? Insondáveis. Há, claramente, uma diferença entre tropeço e fracasso. O Porto esta noite tropeçou numa montanha (que cresce e cresce) e só daqui a três meses saberá se fracassou. Por alturas da segunda-mão, a jogar-se na Luz. A não ser que os danos colaterais se disseminem pelo trajecto imaculado no campeonato nacional.
Por agora, elogie-se a evolução óbvia do Benfica. Passou de matéria melosa, ansiosa por afecto, a um corpo confiante, adulto, capaz de saborear a cumplicidade de um gin. Play it again, Sam. A melodia é da autoria de Jesus.
in "maisfutebol.iol.pt"












