segunda-feira, 22 de abril de 2013

Presidente do Porto abre o jogo ao LANCE!Net sobre sucesso do clube

Pinto da Costa conta como transformou o clube em um gigante, fala sobre as dificuldades, e assume que em certos momentos se arrepende de ter dedicado tanto tempo



Pinto da Costa (Foto: Jean-Pierre Clatot/AFP)
Quando Pinto da Costa assumiu a presidência do Porto, em 1982, o clube era o “time simpático do Norte”, segundo ele mesmo. Depois de 31 anos, completados esta semana, ele é o dirigente esportivo com mais títulos do mundo e, no total, passou o Benfica. Além de ser visto como um negociante implacável.
Quando entrou, seu projeto era ficar dois anos e, a longo prazo, levar o Dragão a uma final europeia. Não só foi, como o Porto se tornou bi da Liga dos Campeões, da Liga Europa e do Mundial de Clubes.

A entrevista exclusiva com o dirigente feita no Estádio do Dragão fecha a série "Terrinha", que começou nesta quarta-feira.

Como foi o início de toda a sua trajetória?
Eu já tinha uma experiência, sabia o que não estava certo. Entrei com uma política de reforçar a equipe com jovens, escolher o melhor técnico da altura, sempre nessa linha. Internacionalmente, no meu programa, queria chegar a uma final europeia, sem promessa de vitória. Estivemos em várias, só perdemos uma, em 1984.

De onde surgiu a estrutura altamente profissional?
Foi-se criando com contatos, conhecimentos, uma rede de informação e de observação que nos permitiu trazer talentos como Carlos Alberto, Deco. Foi possível fazer grandes equipes. Esse princípio continua dando frutos. Temos jogadores dando grandes frutos, como o Alex Sandro, que está em uma forma espetacular, James...

  
James é o craque do time atual
(Foto: Gregório Cunha/AFP)
É baseada em conceitos empresariais, esportivos, o quê?
É tudo. Tem que haver rigor orçamental, pessoas competentes, mesmo na base. Na Primeira Divisão, tem mais de uma dúzia de treinadores que iniciaram aqui. Tenho pena quando os vejo partir, mas é sinal de que a nossa escola cria bons profissionais e é um prazer.


Como funciona a rede de olheiros espalhada pelo mundo?
Temos vários coordenadores. Conforme o lugar do planeta que estão, podem descobrir o Hulk no Japão. Ele tinha passado batido aqui no Vilanovense. Observamos que seria um grande jogador. Essa rede nos permite ter a chance de contratar quando são desconhecidos. Depois, quando estão nas vitrines, ficam fora das possibilidades.


Qual é a importância da rede de psicólogos?
Para os jogadores se adaptarem, para que tenham quem possa aconselhar, que resolva os problemas. Dou um caso recente. O Izmailov (russo que foi contratado junto ao Sporting), agora no primeiro contato, não fala uma palavra de português, depois de cinco anos em Portugal. Ele disse que quando chegou em Portugal, falavam com ele em inglês, em casa falava russo, não precisava falar português, e agora já está fazendo lições de português e está aprendendo. Isso é parte de um aconselhamento, ele está em um grupo, e é importante que o entendam, aqui, a maioria fala português ou espanhol.


Estar fora da capital portuguesa trouxe alguma dificuldade?
Tenta-se minimizar isso. Portugal é um país centralizador. Isso acontece em muitos países, principalmente nos pequenos, e tem que ser combatido. É uma dificuldade, mas temos combatido.


Sempre tentam levar membros da diretoria do Porto. Como segurá-los por aqui?
A porta está aberta para quem a gente quer que entre e para quem quiser sair. Além de profissionais em níveis diretivos, tenho a felicidade de encontrar pessoas que gostam do que fazem, do trabalho que fazem e do Porto. Por isso tem sido difícil levar quem quer que seja.


Qual é o segredo da habilidade implacável do Porto no mercado?
Comprar o talento jovem. Simples. O Deco, por exemplo, nem foi para o Porto. Esteve no Benfica, depois esteve no Alverca, depois trouxemos, pois acreditávamos que ele iria evoluir.


É até uma forma de driblar a crise financeira em Portugal?
Sim. Este governo faz um ataque feroz aos clubes com impostos. Os ingressos de futebol subiram os impostos em 23%, os espetáculos pornográficos só pagam 6%. Se não fosse ferir as pessoas, iria botar os jogadores de cuecas, para ver se incluía, ao invés de em programa esportivo, em programa pornográfico. Há uma insensibilidade do governo. O que é “interessante” é que quando a seleção ganha os governantes aparecem na primeira linha, mas estão atrofiando os clubes.


Pinto da Costa recebeu a reportagem do LANCE!Net no Estádio do Dragão (Foto: Divulgação)
Enquanto isso, os estádios vão ficando mais vazios...
Vazios, deteriorados, desaparecendo, como o do Algarve, que não tem utilidade, o de Leiria, quase abandonado, com assistências reduzidas. E vai ser cada vez pior.


E sem as transmissões em TV aberta...
E tem as apostas, que aqui são proibidas. São tudo dificuldades, cada vez maiores. Temos que inventar soluções, ser rigorosos no que se gastam, temos que rentabilizar os jogadores, temos feito arte em valorizá-los.


Existe união entre os clubes?
Não, infelizmente. A Liga, que poderia ser aglutinadora, não faz rigorosamente nada. E o povo, são 16% ou mais de desempregados. Como essa gente pode vir em jogos e pagar mais? A perspectiva não é animadora, mas quando vem uma tempestade, temos que tentar nos abrigar e sair incólumes. Temos que investir na estrutura, cada vez mais vai ser necessário investir em talentos. A gente vê jogadores que saem do Sporting por pouco exatamente por isso. Nós, felizmente, temos resistido e vendemos quando entendemos que temos que fazê-lo. Mas sabemos que tem clubes milionários que não têm limitações de dinheiro, que são de árabes e russos, como Chelsea, PSG... É difícil resistir. Tivemos propostas grandes para o João Moutinho e tivemos que fazer esforço para segurá-lo.


Qual a importância de ser um clube global e como tornar isso em receita?
Hoje, o Porto é reconhecido em todo o mundo. Ainda há pouco estive o Durão Barroso (presidente da Comissão Europeia), que estava em "confins do mundo". Quando mostrou o passaporte português, falaram logo em Porto, o clube é reconhecido. E claro que a comunicação se interessa, o Brasil se interessa, por exemplo, como é o caso dessa nossa entrevista. Tenho dado entrevistas para grandes jornais estrangeiros, o interesse é sempre grande lá fora. Mas se pegar em jornais portugueses, pensa-se que o Porto é da Segunda Divisão, pois quando chega à página do Porto, os olhos estão calejado de ver vermelho. É a tal centralização, fanatismo nas pessoas em só ver vermelho. Mas a valorização vem em merchandisign, acordos, no Dragon Force (projetos de escolinhas e base do Porto) de montar escolas nos mais diversos pontos do mundo, isso vai trazer retorno. Eu assinei uma proposta de sócio de um rapaz de 14 anos, que mandou uma foto com a camisa do Porto, com a bola na mão, ele era da Suécia, e queria ser sócio. Na escola dele, todos gostavam do Porto, eu preenchi essa proposta, pois ele queria estar ligado, isso é significativo.


A Dragon Force pode ir para o Brasil?
Temos estudos com o Carlos Albeto Silva, que depois, por problemas de saúde, não foi para a frente. Mas o Brasil tem grande desenvolvimento, o Brasil anda para a frente, no Brasil se gosta do futebol, não se gosta do clube e tenta atacar dos outros, gosta-se da Seleção, é o futuro, é o presente, será o grande país.


Há algum negócio do Porto de que você se orgulhe mais?
Não. Para mim, o objetivo não é fazer negócios, como saiu recentemente o Hulk. Para mim é uma tristeza, como foi para ele. E existe o ditado de que “vão-se os anéis, ficam os dedos”, mas são as necessidades da vida. E quando sai um anel como o Hulk, é preciso ter outro anel para colocar no dedo. Fico orgulhoso de vê-los valorizar aqui, muitas pessoas nem sabiam quem ele era, brasileiros mesmo, e hoje é da Seleção.

Pinto da Costa dizia que Hulk era como um filho (Foto: Miguel Riopa/AFP)
Quando entrou, imaginava ficar por tanto tempo?
Era impensável. Fumava três maços de cigarro por dia. Decidi não fumar no clube, e não me custou muito, era uma decisão por dois anos. Nesse tempo, eu me limparia por dois anos e parei por 31. Tive para sair várias vezes, mas, por isso ou por aquilo, não saí. A última vez que eu quis sair foi quando se começou a pensar neste estádio em que estamos. Pensou-se que se eu saísse, o estádio não sairia. Então, entre a minha vida e depois ser acusado de não me meter no projeto, fiquei.


Abdicou muito de sua vida pessoal pelo Porto?
Muitíssimo. Tive vários projetos de pessoas interessadas em determinados ramos, como um projeto com um amigo fantástico, mas, por não ter sucessor, abdiquei.


Arrepende-se?
Sim. Acho que, olhando para trás, desportivamente, foi fantástico. Vencemos coisas impensáveis há 30 anos. Nem eu pensava que venceríamos duas Ligas dos Campeões, Liga Europa, Copa Uefa, Intercontinentais... Meu sonho era chegar a uma final europeia. Olhando para trás, na vida profissional e na empresarial, perdi grandes projetos, mas a vida é como é. A minha avó dizia que cada um é para o que é. Então é isso.


Já prepara algum substituto?
Não. Não tenho que preparar, isto não é uma monarquia. No dia que entender que tenho que sair, ou que queiram que eu saia, saio. Quem quiser se candidatar, os sócios vão escolher, sem que eu influencie. Quem vier, se vier às minhas costas, não terá a legitimidade nem a força e a independência. Se correr bem, vão dizer que fui eu, se correr mal, foi o novo que não foi capaz de fazer o mesmo. A ideia é não me envolver em luta eleitoral.


Teria disposição de negociar com um treinador no carro de madrugada, como fez com José Maria Pedroto ainda antes de assumir?
Sim. Nós éramos amigos, não tem dificuldade. Só é mais perigoso por causa dos assaltos (risos). Iríamos para a porta de uma delegacia, não teria problema. Aquilo foi notável. Eu fechei o acordo com o Pedroto no dia 29 de janeiro, e só sabíamos eu, ele e o presidente Américo Sá. Só foi a público em 23 de julho. Hoje não seria possível tanto tempo. No dia do acordo, nós estávamos em um café e, quando nos despedimos, eu disse que o levaria em casa. Ele me chamou para entrar, eu disse que não, pois alguém poderia ver, e ficamos lá conversando as questões. Já nesse mesmo dia fizemos o plantel, e esse segredo ficou entre os três até o dia da assinatura. E conseguimos fazer o plantel.


Há relação do Porto com os clubes de Lisboa?
Todos, exceto um. É uma relação normal, em que é possível conversar, negociar. É tudo possível, tudo normal, de colaboração, até em projetos comuns. Com o Benfica não existe relações.


Como é a rivalidade, principalmente política, com o Benfica?
Rivalidade política não há, nós não nos metemos em política, não quer dizer que não nos demos bem. Quando o primeiro-ministro anterior, José Sócrates, fez um jantar de apresentação dos apoiantes, estava na direita o presidente do Benfica, e na esquerda o doutor Mário Soares, um dos pilares da democracia, isso mostra a ligação que havia entre o clube e a política através do partido socialista, mostra que há uma grande identidade, não estava naturalmente como amigo, Sócrates nunca foi colega dele na faculdade. Mas isto, para lhe dizer que no Porto isto era impensável. Eu, no meu caso, não tenho partido, estou à vontade para votar em quem bem entender para os interesses da cidade, já votei em pessoas de vários partidos, sem qualquer propaganda, como não tenho partido, voto em quem a consciência me diz que é melhor.


Já recebeu convite para ingressar na política?
Já, mas nunca admiti a hipótese. Quem está em um lugar como o meu precisa ser independente. Admitir compromisso tomando partido por qualquer partido, perderia a minha independência perante os sócios do clube.


Como lida com as críticas da imprensa e dos rivais?
Fico contente. Lembro-me quando o Pedroto tinha uma briga muito grande com o “A Bola”. Em uma ocasião, li um artigo de um indivíduo que sempre falava mal dele – não vou falar o nome, pois já faleceu. Ele veio me mostrar o que esse fulano escreveu, e eu disse: “vai dizer que ele escreveu que tem um câncer e não sabia?”. E de fato tinha e não sabia. Então enquanto falarem mal de mim, quer dizer que não tenho câncer, nem estou mal do coração. Mas tem jornalistas, pessoas, pseudo-jornalistas que, se não escreverem mal de mim, não sabem escrever. Tem uma sujeita que, a cada dez, nove fala de mim. Paixão, certo que não é, sempre fala mal. No dia em que ela não falar, vou logo ao médico.


Como vê o futebol brasileiro?
Ainda um bocado amador, estive no ano passado no Rio de Janeiro, estive até com o Deco, jantei com o treinador do Fluminense, eles realmente diziam as diferenças que há entre o Porto e a organização deles, há necessidade de mais rigor, de mais gente profissional, tem uma vantagem enorme que nascem talentos todos os dias. Qualquer dia, vamos ter empresários nas maternidades assinando contratos. A cada 10, oito são grandes jogadores. Só ver que na Libertadores, os brasileiros estão sempre.


Um arrependimento: Roberto Carlos
Entre os vários negócios de sucesso e contratações certeiras que o Porto fez ao longo dos últimos 31 anos, algumas teriam que ser mal-sucedidas. E Pinto da Costa assume que tem um arrependimento: não ter contratado Roberto Carlos.


  
Lateral não jogou em Portugal
(Foto: Miguel Schincariol)
Ele explica que tinha que optar entre ele e Geraldão.

– Na época do técnico Artur Jorge, poderíamos trazer dois jovens brasileiros, quase desconhecidos, mas só tinha como trazer um, e era o Geraldão ou o Roberto Carlos – começa o presidente, para valorizar sua escolha, que chegou a estar na Seleção Brasileira:

– Era uma pena não poder ter trazido os dois. Não podíamos. Acabou que optamos, com muito sucesso, pelo Geraldão.

O lateral-esquerdo, que acabou brilhando na sequência no Palmeiras e foi para a Europa jogar na Inter de Milão e foi ídolo no Real Madrid, confirma a história.

– Eu soube disso sim, mas cada um tem sua escolha, e eu respeito muito o Pinto da Costa, é um grande profissional – disse ao L!Net.



in "lancenet.pt"

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