segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Isto parece o Iraque. É mais polícia que povo"

Um helicóptero amarelo ziguezagueava por cima do Estádio do Dragão, enquanto os "ninjas" do Corpo de Intervenção da PSP, capacete na cabeça, cassetete na mão, obrigavam uma pequena multidão em fúria a recuar umas centenas de metros para que os adeptos do Benfica passassem sem incidentes.

O trânsito tinha sido estrategicamente cortado. Assustada, Sunny pedia insistentemente a um polícia que a deixasse passar. "Queria só apanhar o metropolitano para ir para casa", gaguejava a frágil japonesa, perplexa com o todo o aparato em redor do estádio. "Para trás, para trás, para trás", gritava um agente, pose rígida, olhar tenso, enquanto os mais de dois mil benfiquistas que vinham a pé desde a estação de Campanhã marchavam, velozes, sob a escolta da polícia motorizada, que nem chefes de Estado de países ameaçados por perigosos terroristas.

"Isto parece o Iraque", lamentava António Abreu, um dos cerca de quinhentos portistas que ontem se aglomeraram em frente à entrada lateral do Dragão, à espera dos adeptos benquistas e do autocarro com a equipa adversária. "É mais polícia que povo. Quero ver quem vai pagar a factura", bufava, indignado com a magnitude da presença policial, que rondou os 600 efectivos.

Mas nem a impressionante operação de "tolerância zero" impediu que a tradição se repetisse: o autocarro da equipa do Benfica voltou a ser alvejado com algumas pedras e bolas de golfe, durante o percurso desde o hotel, na Avenida da Boavista, até ao Estádio do Dragão. À chegada ao estádio, o "vermelhão", aguardado pela turba azul e branca em brasa, porque a polícia a contivera num respeitável perímetro de segurança, exibia já um estilhaço no vidro da frente do piso superior. E de novo umas poucas pedras e bolas de golfe voaram, sem atingir, porém, o veículo, que se esgueirou pela entrada do estádio, por entre os tronitruantes insultos dos adeptos portistas.

Apesar de tudo, o subintendente que comandava a operação parecia aliviado. Foram apenas "pequenos contratempos", comentava, em declarações à SIC, enquanto sublinhava que o autor do arremesso da bola de golfe que estilhaçou o vidro do autocarro ?"foi detido de imediato" e que um outro teve o mesmo destino por ter sido capturado com "pequenos petardos".

Frustrados ficaram os ânimos dos portistas mais aguerridos. Até porque a operação de arremesso de flores - que um grupo tinha engendrado para atirar simbolicamente ao autocarro benquista - caiu literalmente por terra. Um dos autores da ideia ainda tentou convencer os adeptos a quem tinham sido distribuídos cravos e malmequeres a não proferir insultos, enquanto os exibiam num ensaio para as câmaras de televisão. Sem sucesso. "Filhos da puta", gritavam, com as flores em riste. Os "dragões" voltaram a mostrar a sua garra.

in "publico.pt"

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