sábado, 7 de maio de 2011

James: "Nunca imaginei chegar a uma final destas antes dos 20 anos"

James gosta de ziguezaguear com a bola colada aos pés, mas, no que toca a entrevistas, prefere ir directo ao assunto. Sem dribles, sem grandes floreados nas respostas e num tom pausado que se junta à lista de indícios que anunciam uma maturidade precoce. Aliás, um breve resumo da biografia desportiva não deixava dúvidas quanto a isso: estreou-se profissionalmente aos 14 anos, emigrou aos 16, foi campeão argentino aos 18 e, já em Portugal, voltou a ser campeão aos 19. Quem o viu de microfone em riste, orquestrando o coro de vozes no avião que trouxe o FC Porto de Vila-Real, ficou com uma imagem incompleta. A essa irreverência que a idade aconselha, James junta um lado mais sereno. E, ontem, juntou também uma paciência infinita para a prolongada sessão de fotos. "É mais fácil jogar", desabafa, entre um clique e outro. Mas, foi precisamente por saber ser paciente que o colombiano esperou sem dramas por uma oportunidade que tardou em chegar, assim como já tivera paciência, ainda no Banfield, para aguentar quase um ano de trabalho físico que lhe foi formatando um talento que haveria de render ao clube argentino o primeiro título em 113 anos de história. Neste primeiro ano europeu, James foi explodindo aos bocadinhos no FC Porto, anunciando-se uma explosão ainda mais estrondosa na próxima época.

Como está a voz depois daquela festa toda no avião?

Está boa. Houve muita alegria na viagem e a verdade é que estamos todos muito felizes com a passagem à final...

Deu para ver. E quem é que canta melhor no plantel?

[risos] Todos são bons cantores; têm grande talento.

É esse espírito que explica o rendimento da equipa em campo?

Sim, somos muito unidos e temos um grupo excelente. É importante levarmos isso para o relvado, porque essa união acaba por fazer com que todos joguem bem.

Para primeira época na Europa, o seu saldo não está nada mal...

É verdade, está a ser um sonho. Já ganhei dois títulos e ainda posso ganhar mais dois.

Era isto que esperava quando escolheu o FC Porto?

Corresponde ao que esperava, sim. Quando assinei, já sabia que se tratava de um clube ganhador, que luta sempre por títulos. E confirmei.

Imaginava que antes dos 20 anos podia chegar a uma final como esta?

Não, nunca imaginei. De verdade que não, apesar de sonharmos sempre com estas coisas.

Chegar lá é um acontecimento, mas jogá-la seria o ponto mais alto da carreira até ao momento?

Sem dúvida que sim. Vamos lá ver. Trabalho, como todos trabalham, para estar no onze e esperemos que tudo nos corra bem.

Surpreende-o que o adversário seja o Braga e não o Benfica?

Não, não me surpreende. O Braga tem uma excelente equipa e por alguma razão está nesta final. Há excelentes jogadores no Braga e acredito que a final será muito complicada.

Nesse caso, isso significa que concorda com Pinto da Costa quando ele diz que seria mais fácil jogar com o Benfica?

Não, não [risos]. O que me parece é que vai ser muito complicado; um jogo com muita luta.

O FC Porto é o favorito?

Creio que sim. O FC Porto está num grande momento, joga bem, mas trata-se de uma final. Tudo pode acontecer.

Com que ideia ficou dos jogos com o Braga este ano? 3-2 no Dragão, 2-0 em Braga...

Foi muito complicado, sem dúvida. O Braga fecha-se bem e acaba por ser uma equipa muito difícil de bater.

A menos de duas semanas da final, como imagina que será?

Um marco inesquecível, lindo. O estádio vai estar cheio. Já o jogo, imagino-o complicado.

Acompanhava as provas europeias quando estava na Argentina e na Colômbia?

Sim, acompanhava. Aliás, vi várias vezes o FC Porto na Liga dos Campeões...

"O meu melhor jogo até foi com o Braga..."

Coincidência. O adversário que enfrentará em Dublin, uma capital que já entrou no vocabulário corrente de James, é o mesmo que lhe proporcionou uma das melhores memórias da época. Ele explica porquê: "Penso que o melhor jogo que fiz até agora pelo FC Porto foi o de Braga". Não terá sido dos jogos mais vistosos do colombiano, que não esteve ligado a assistências para golo ou a golos, como já aconteceu noutras ocasiões, mas James entende que, tacticamente, esse jogo-chave da caminhada para o título lhe "correu bem". E não desdenharia rendimento idêntico no próximo dia 18, na Irlanda. "Estou sempre preparado para quando o mister precisar para dar o meu melhor e ajudar a equipa", atirou, diplomaticamente.

"Filosofia de Villas-Boas? Atacar, ganhar e jogar bem"

James tem 19 anos e está na fase inicial de uma carreira no futebol que, ainda assim, começou prematura a nível profissional; Villas-Boas tem 33 e se ninguém questiona a sua competência, considerada a forma como tem conduzido o FC Porto esta época, não deixa de ser inegável que também ele é um jovem na profissão. A proximidade de idades, entre treinador e jogadores, foi um argumento favorável, diz James. "Ele fala a nossa língua. É um jovem, mas sabe muito. Preocupa-se com os jogadores e tem uma óptima relação com todos", frisou, antevendo uma carreira de grande sucesso ao actual treinador. "Dentro de três ou quatro anos vai ser um dos melhores do mundo", frisou. E porquê? James desenvolve: "A filosofia é simples: pensa sempre em atacar, ganhar e jogar bem". Se José Mourinho considerou um dia que a vitória era o mais importante no futebol, Villas-Boas, apesar de ter privado com ele vários anos, acrescentou mais uns detalhes a essa ideia-base de qualquer equipa. "Se ganhas e jogas bem, melhor. É isso que o treinador pretende", sublinhou o colombiano.

Precisamente por causa desse ideal, James insistiu numa comparação que fez há dias: FC Porto e Barcelona partilham estilos idênticos. "O que quis dizer com isso foi que o FC Porto também se preocupa em jogar bem e tem excelentes jogadores, tal como o Barça", explicou, antes de admitir que a adaptação ao estilo de jogo europeu lhe custou um pouco. "Foi uma mudança drástica, sobretudo a nível de mentalidade, em relação à Argentina. O futebol é diferente da América do Sul. O jogo aqui é mais rápido, tem mais ritmo e acaba por ser mais difícil", rematou.

"Hulk é mais físico e mais rápido do que eu"

James já tinha ouvido falar de Hulk e, por isso, não ficou surpreendido quando passou a trabalhar com ele diariamente no Olival. Aliás, até agradece ter alguém com as capacidades do Incrível. "É bom vê-lo nos treinos porque posso aprender com ele. Tem mesmo muita qualidade", referiu. Ainda que joguem em posições idênticas, um mais na direita e o outro na esquerda, James faz questão de dizer que são jogadores bem diferentes, não se vendo como um sucessor natural caso Hulk acabe transferido. "Ele é mais físico e mais rápido do que eu", sublinha.

"Tive paciência para esperar e nunca pensei em desistir"

O que tem James em comum com um trevo de quatro folhas ou uma pata de coelho? À sua maneira, o colombiano é bem capaz de entrar um destes dias na categoria reservada aos amuletos. A explicação é fácil: foi campeão no Banfield e em Portugal em pouco mais de dois anos como profissional. James foi-se habituando a festejar, sem precisar de esperar muito. "Oxalá possa dar sempre sorte às equipas. Eu é que tive sorte em ser campeão onde joguei; isso foi muito bom para mim", reconhece, divertido com a constatação. Mais a sério, admitiu que os primeiros meses em Portugal não foram fáceis, porque tardou em entrar nas escolhas de Villas-Boas, mas isso não o fez desistir. O casamento em Dezembro último, disse também, trouxe-lhe "mais tranquilidade" para encarar os desafios com força renovada e, coincidência ou não, passou a ser uma opção mais frequente daí em diante. Brilhou sobretudo na Liga Europa, fazendo parte do top 3 no ranking das assistências para golo. No Banfield, começou a familiarizar-se com as alas, diz-se pronto para esse papel, mas confessa que é pelo meio que se sente como peixe na água. Quando enumera as referências, percebe-se um pouco melhor: Messi e Cristiano Ronaldo, como é óbvio, mas também Gerrard e Lampard. "Se gostava de ter um bocadinho de cada um deles? Bem, procuro é segui-los; ver como fazem em campo."
Ainda a propósito de sorte e azar. Também não se pode queixar da estreia no Dragão, porque marcou um golo ao Ajax, mas depois demorou a reaparecer...

Sim, mas nunca perdi a paciência porque sabia que o meu momento haveria de chegar. Ser paciente é uma qualidade minha; depois, é importante saber ter a tranquilidade para aproveitar as oportunidades.

Já no Banfield tinha estado cerca de um ano em trabalho quase exclusivamente físico antes da estreia...

É verdade, mas, também aí, mantive sempre a tranquilidade.

Aqui em Portugal, quando não jogava, nunca lhe passou pela cabeça desistir? Falou-se até de um possível regresso à Argentina...

Claro que nunca pensei em desistir. Treinei para ter oportunidades; sabia que iam aparecer.

Especulou-se também sobre o seu posicionamento em campo. Afinal de contas, prefere jogar encostado à linha ou no meio?

Onde o treinador quiser. É verdade que me sinto bem pelo meio, mas, se o mister me quiser na ala, tudo bem. Não há problema. Sou jovem e sei que tenho de melhorar em muitas coisas. Com tempo isso vai acabar por acontecer...

Com a adaptação concluída, os adeptos podem esperar um James ainda melhor na próxima época?

A minha ideia é essa: trabalhar e melhorar sempre. Espero que a próxima época seja boa para mim e para a equipa.

Tem-se destacado nas bolas paradas. Pode ser um bom argumento para lhe abrir as portas do onze?

Acho que sempre tive essa qualidade de marcar livres e cantos. Assisto bem [risos].

A alegria de servir os companheiros

James vai-se destacando nas assistências. Na Liga Europa, só Roman Eremenko, do Dínamo de Kiev (com seis, em 12 jogos e 1069 minutos) e Arthur Boka, do Estugarda (com cinco, em 5 jogos e 390 minutos) fizeram melhor do que o portista (quatro assistências em 8 jogos e 358 minutos). Há mais jogadores com quatro assistências, mas também com mais tempo de jogo. O colombiano gosta da estatística e confessa que servir os avançados é uma tarefa que lhe dá um gozo especial. "Dá-me muito prazer ver os meus companheiros marcarem. É uma alegria servi-los", diz, antes de comentar lembrar um detalhe que lhe é favorável nas contas: "É muito bom ter quatro assistências em tão poucos minutos. Não é nada fácil."

Um Mundial para conhecer... Iturbe

O FC Porto termina a época a 22 de Maio, quando defrontar o Guimarães na final da Taça de Portugal, mas para James isso não significa o início das férias. Pelo contrário. O colombiano deve juntar-se de imediato à selecção de sub-20 do seu país para participar no prestigiado Torneio de Toulon, onde defrontará Portugal logo na abertura. "Só vou ter três semanas de férias, mas vou fazer ginásio depois de Toulon para não perder a forma para o Mundial de sub-20", referiu. Essa prova disputa-se entre 29 de Julho e 20 de Agosto, precisamente na Colômbia. "Vamos jogar em casa e um Mundial é uma prova sempre difícil, mas isso dá-nos mais motivação. Estou preparado e quero estar bem para ajudar a selecção." A presença na competição vai custar-lhe o início da época no FC Porto. "É verdade, mas estarei com a selecção e isso também será muito importante para mim", frisou. No Mundial, James poderá cruzar-se com o futuro reforço portista, Iturbe. "Só agora é que ouvi falar dele, confesso, mas dizem que é um grande jogador", atirou.

Quatro referências

James sempre gostou de jogar pelo meio, mas no FC Porto tem sido mais aposta para o lado esquerdo do ataque. Curiosamente, os jogadores que aponta como referências explicam melhor os (alargados) terrenos que gosta de percorrer. James aprecia a forma como Ronaldo marca os livres, a magia de Messi, o fôlego de Lampard e da imponência de Gerrard. Humilde, diz que não tem um bocado de cada um deles, mas apenas que os procura "imitar em campo".

Lampard

"Tem muito fôlego, está sempre em movimento, toca bem a bola"

Gerrard

"Domina todo o meio-campo e marca muitos golos"


Messi


"Simplesmente faz coisas que ninguém faz. Mais nada"


Ronaldo


"Além de ser um excelente jogador, marca bem os livres"

"Falcao é o melhor jogador colombiano"

São três os colombianos do plantel do FC Porto e até foram eles que fabricaram o segundo golo em Vila-Real. "Foi muito bonito. Meti a bola no Guarín, que correu e centrou muito bem para o Falcao que, para não variar, marcou", contou. Ora, por causa deles, a carreira do FC Porto está a ter "um enorme impacto" na Colômbia. Ou não morasse no Dragão o melhor jogador daquele país, na opinião de James. "O Falcao é um grande goleador e isso é óptimo para ele e para o clube. Explodiu aqui no FC porto e penso que, neste momento, é o melhor futebolista colombiano, mas o Guarín também tem estado em bom plano", referiu. "Já o conheço há uns seis anos e sempre foi um bom jogador, mas agora está a num grande momento", acrescentou, dizendo que ninguém no plantel o surpreendeu em particular. "São todos bons jogadores, de topo", sublinhou.

Casamento deu-lhe muita tranquilidade

É muito improvável que casar esteja entre as proridades de qualquer jovem de 19 anos. James nem hesitou em fazê-lo, em Dezembro último. Mais do que escarafunchar uma parte da vida que só a ele diz respeito, a verdade é que há um bom motivo para tocar no assunto. Na verdade, até há dois. Por um lado, é o próprio James a admitir que o facto de ter optado por casar-se tão novo foi determinante para garantir um pilar sólido que acaba por reflectir-se no futebol. "Foi muito importante fazê-lo", diz, à procura da melhor palavra para completar o raciocínio. "Como dizer? Está-me a faltar a palavra certa. Bem, Deu-me muita tranquilidade", reforça. O segundo motivo que faz do tema assunto público é o facto de Daniela, a esposa, também ela colombiana, fazer parte do plantel de voleibol do Leixões, lutando pelo campeonato de juniores. "Somos dois desportistas lá em casa", ri-se James. "Ela joga vólei e joga bem! Oxalá que também possa ser campeã..."

Nas horas vagas, passeia e aprende... inglês

O Porto, diz James, "é uma cidade linda, tranquila; só o frio é que foi difícil de aguentar, embora também já o tenha enfrentado na Argentina".

Perfeitamente adaptado às rotinas e aos costumes portugueses, James garante que tem uma vida pacata. "Além de treinar, e como tenho muitas tardes livres, aproveitei para me inscrever num curso de inglês", confessa. À semelhança de Falcao e Guarín, também ele se assume fã do Twitter, onde já tem mais de 17 mil seguidores.

Essa ligação ajuda-o a manter o contacto com a Colômbia, onde o FC Porto, à conta dos três colombianos, tem conquistado muitos adeptos. "O impacto das nossas vitórias tem sido enorme. As pessoas seguem muito por causa do Guarín, do Falcao e também por minha causa", conta James.

"O melhor na Playstation sou eu!"

Como a maioria dos jovens de 19 anos, James passa horas em frente à televisão, a jogar Playstation. Naturalmente que os jogos de futebol são os preferidos e embora não chegue ao ponto de ganhar tendinites nos dedos, o colombiano é craque também fora dos relvados. Aliás, parece que não há quem o bata no balneário portista a jogar FIFA ou PES, os mais populares videojogos de futebol, apesar de não faltarem especialistas. "Já joguei várias vezes contra os meus companheiros e ganhei. O Belluschi, o Mariano e o Falcao também jogam bem, mas, no fim, eu ganho-lhes sempre", atirou sem esconder um sorriso. E se quando estava na Argentina escolhia sempre o Real Madrid, por causa de Ronaldo e Kaká, como equipa preferida, nesta altura os craques virtuais que controla são outros. "Agora jogo com o Barcelona e com o FC Porto porque são os que praticam melhor futebol", frisou, divertido.
in "ojogo.pt"

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