Sem a neve e sem o gelo de Viena, a exibição do FC Porto foi patinando à vista desarmada na segunda parte até chegar ao impensável golpe de teatro: um penálti duvidoso - tal como fora duvidoso o que, ainda na primeira, favorecera Falcao - ameaçava roubar dois pontos à liderança confortável dos portistas. Parecia castigo em forma de lição bem dada, ainda que resultasse de um somatório de asneiras: não só a suposta falta de Fucile sobre Henrique era discutível, como Elmano Santos ainda conseguiu punir com amarelo Otamendi, que nada tinha a ver com o assunto. Se o tivesse mostrado a Fucile, apoiado na certeza de que este tinha mesmo feito falta, seria a expulsão do uruguaio. Um detalhe apenas, porque o jogo entrava nos descontos, mas um equívoco a contribuir também para o final escaldante. Frio, qual frio? Jaílson lá marcou o penálti à primeira, mas falhou-o à segunda. Elmano ainda não tinha apitado quando ele enganou Helton e, na repetição, a bola saiu-lhe por cima da barra. O estádio gritou como se fosse golo. Como não foi, os três pontos acabaram no bolso do FC Porto, que esticou novamente a vantagem para oito pontos.
Este último minuto ajuda a um resumo perfeito: pode um jogo pobre ser assim tão rico em histórias? Pode, pois.
Antes de mais, não houve Villas-Boas no banco. E, a avaliar pela quantidade de vezes que Pedro Emanuel se levantou para segredar ao ouvido de Vítor Pereira as instruções vindas da bancada, ele não estava a gostar nada do que via. Provavelmente, não estaria a gostar de tamanho desperdício na primeira parte: o Setúbal, nessa altura, fazia figura de corpo presente, mas, apesar do domínio avassalador de posse de bola, não havia maneira de capitalizar essa supremacia. Por desacerto na finalização, mas também por desconcentrações pouco comuns neste FC Porto. O penálti acabou, assim, por cair do céu. Já se disse que foi duvidosa a infracção assinalada a Collin, mas Hulk não quis saber desses detalhes e marcou mesmo, reforçando o estatuto de melhor marcador do campeonato.
Ao intervalo, Manuel Fernandes deve ter aquecido as mãos num eficaz puxão de orelhas a uma equipa apática. Teve também uma boa ideia, lançando Zeca, autor do primeiro remate setubalense à baliza de Helton - aos mais distraídos, convém reforçar que já se vai na segunda parte. Subitamente, o Setúbal acordava e aproveitava a apatia portista, aparentemente resultante do desgaste físico da Liga Europa, para deixar o jogo num limbo. A vantagem do FC Porto fragilizava-se com o passar dos minutos, aumentando a sensação de desconforto. Villas-Boas, por intermédio de Vítor Pereira, ainda se socorreu de Rúben Micael e de Sapunaru para dar consistência, mas eram os setubalenses quem carregavam. Manuel Fernandes prescindira dos médios-defensivos (Bruno Gallo e François) e apostara em tudo o que era avançado. Depois de Zeca, Henrique e Sassá.
De tanto empurrar o FC Porto para trás, com lançamentos em profundidade, cantos e livres, o Setúbal lá chegou ao que parecia ser um golpe fatal. O apito de Elmano Santos gelou as bancadas do Dragão, onde estava Villas-Boas. Jaílson tratou de as aquecer novamente ao falhar o penálti.
Fica a lição: os maiores tropeções da caminhada podem resultar de obstáculos mais pequenos. O FC Porto argumentará que, além da lição, ficaram também os três pontos...
FC Porto, 1 - Setúbal, 0
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